Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Ócio destrutivo


Já me disseram que este espaço provavelmente era uma mentira que só calhava enquanto eu estava no Ensino Médio.

Acontece que, antes de uma mentira, este blog era uma grande desculpa para não fazer nada em nome da produção criativa. O ano passado foi completamente vivido à sombra de uma maldita prova que, no final das contas, nem era tão difícil assim. Passar um tempo em frente ao computador sem ter que tocar em um livro de física (grafada com letra minúscula para mostrar como eu desprezo isso hoje em dia) com a desculpa de que escrever era uma maneira de treinar a minha escrita foi sempre uma boa mentira que vinha muito bem a calhar.

Bem na verdade (uma verdade inconveniente, diga-se de passagem), começo a perceber que o objetivo de tudo na vida é o ócio. Mesmo a produção intelectual e o esforço físico tem no simples ato de fazer nada um telos ( agora eu posso me utilizar de termos gregos que ninguém conhece porque sou um universitário, ainda mais próximo da pseudo-intelectualidade e que pode se dar ao direito de escrever coisas irrelevantes e inintendíveis para provar meu traquejo acadêmico).

Hoje mesmo, o que faz com que eu venha a escrever em um lugar que há muito tinha saído do meu cotidiano é a possibilidade de realizar algo menos desagradável do que a pilha de coisas que eu tenho para produzir e resolver.

Passo a acreditar que o casamento, o trabalho bem remunerado e a busca pelo conhecimento e saúde nada passam de maneiras para que cheguemos ao maior tempo possível usufruindo de um fazer-nada de qualidade. A grande razão de ser do humano não seria, então, a perpetuação da espécie, mas a possibilidade de ser cuidado por alguém de quem você cuidou muito tempo, podendo assim, ficar sem fazer nada, ou então dividir o fardo das coisas que devem ser realizadas com mais um trouxa.

Nosso próprio palavreado é preconceituoso. Quando queremos encher o saco de alguém com algum problema nosso a primeira coisa com que nos preocupamos é se a pessoa está ocupada (como se o maior desejo dos ocupados não fosse a oportunidade de parar de fazer o que os faz tão mal). Nós, teoricamente, só podemos incomodar aqueles que estão fazendo NADA, palavra que indica a ausência de algo,e não, como deveria, plenitude pessoal no alcance da felicidade.

As próprias pessoas que quiseram dar uma desculpa bem dada para a sua vagabundagem passaram a falr em ócio criativo, o que na verdade é mais uma grande farsa. Eu, sinceramente, não vejo problema no ócio que não é capaz de acrescentar em nada para ninguém além de mim mesmo. Qual é o grande preconceito em divagar sem absolutamente nenhum objetivo?

Eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que seremos vagabundos sem a culpa do que deveríamos ser ou estar fazendo ao invés de estarmos prostrados. Sonho com uma tarde em que eu não farei nada e mesmo assim não acharei que meu dia foi improdutivo. Sonho com uma manhã em que pararemos de tentar alcançar o inalcançável e daremos uma parada para descanso, para variar. Marthin Luther King que me perdoe por ter tanta preguiça em sonhar, mas hoje, é só esse o meu sonho.

Sábado, 13 de Dezembro de 2008

Discurso de formatura


Por Aline Macedo e Rômulo Florentino

Pais, amigos, professores, funcionários, direção, coordenação e queridas Irmãs Dorotéias, que sonharam com esse dia para nós muito antes de chegarmos a essa escola, boa noite. E, mais importante, boa noite terceiro ano e boa noite 3002!
No nosso primeiro dia de aula, alguém nos disse que nenhum grupo congrega melhor passado, presente e futuro do que uma turma de terceiro ano. Nós não tínhamos idéia do quanto isso se mostraria verdadeiro.
O tempo é engraçado mesmo, para tudo que ele rouba de nós, ele nos agracia com algo. Algumas vezes é um novo amigo, outras é uma nova turma. Algumas vezes é um melhor entendimento de nós mesmos. E algumas vezes é só um dia Perfeito.
Formando-se no colégio, dizendo adeus. Aquela sensação que você tem aos 17 ou 18 anos, que ninguém no mundo esteve tão próximo... Amou tão ferozmente... Riu com tanta vontade... Ou importou-se tanto assim.
Pra chegar até aqui, tivemos a ajuda de profissionais de qualidade, que pintaram da maneira mais colorida possível um mundo novo que seria invisível a olho nu. Encontramos mágicos nobres, mágicos que nos ensinaram a escrever nossa própria história e ousaram enxergar em nós seres humanos muito maiores do que imaginávamos ser.Caminhamos junto a mestres que ao terminarem de colocar no quadro uma matéria que a princípio não fazia sentido para a maioria de nós, dizia com um sorriso no rosto “Isso é lindo...” , provando que a paixão por alguma coisa é o que faz com que nasçam os significados.
É por causa de pessoas como essas, cientes de que educar “não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito”, que tivemos algumas oportunidades (infelizmente poucas, porém mais do que válidas) de subverter entendimentos antiquados de escola, e tornar, por alguns momentos, a sala de aula espaço de construção, e não apenas transmissão de conhecimento. Fazendo assim, com que todos se tornassem professores, comprometidos com o professar de uma fé na nova realidade. E aí, peço desculpas aos grandes educadores da mesa, foi quando eu encontrei meus maiores mestres: a turma 3002.
E como foi bom ter as pessoas dessa turma ao meu lado... Estar perto de vocês foi, antes de mais nada, o maior privilégio que a vivência escolar poderia me dar. É pensar que conheci gente tão única e tão boa que passou a ser impossível acreditar que há alguém ruim no mundo.
Quando deixamos pela última vez a nossa sala, a sensação que eu tinha era a de que queríamos viver para sempre. Mas o tempo tudo arrasta e os muros da escola já tinham há muito ficado pequenos para coisas que eram maiores do que todos nós e do tamanho dos sonhos que partilhamos.
O fato de que agora cada um vai seguir o seu caminho e de que não compartilharemos a mesma sala todos os dias assusta, afinal, quando tudo é realmente especial é muito mais difícil de partir.
As brigas, as risadas, os choros, as conversas fora de hora, o perfil e o jeito único de uma turma que sempre soube aproveitar e tornar os mais simples atos em grandes momentos que serão relembrados pra sempre.
Dizer que viveria tudo outra vez seria até absurdo, mas se fosse necessário, as pessoas que estiveram do meu lado não seriam diferentes. Ao imaginar o novo tempo que se inicia, meu maior medo é o de pensar que não terei vocês todos os dias por perto, do meu lado, na presença despretensiosa de quem dá tudo de si para fazer o dia do outro um pouco melhor.
Meus queridos amigos, marcas eterna na minha juventude, o que dividimos é grande, é história, um tempo que nunca mais volta. Seria mentira dizer que levo todos vocês no meu coração, porque nossos laços são muito mais fortes do que isso. Levo vocês marcados na minha pele e é um pouco de vocês que eu vou encarar pra sempre no espelho. Porque hoje, eu também sou fruto do que vocês me ajudaram a ser, uma pessoa melhor por causa de gente tão incrível, humana, leal, cúmplice, plena e viva. Se hoje talvez não saibamos ao certo o que queremos, sabemos muito bem o que amamos. E tendo em vista que amar é uma opção, uma certeza é a de que de todas as escolhas que eu possa ter feito, a melhor certamente será a de ter amado vocês da maneira que amei.
Galera, como já diz nossa música, não tem como não lembrar de vocês, sonhar outra vez. E, de uma maneira ou de outra, vamos sim juntos pro ano que vem, abriremos nossos corações a maiores esperanças e seremos felizes de olhar pra trás. Só que o que fomos juntos não é algo que fica pra trás.
Lembrem-se dessa noite, porque ela é o começo de sempre. Uma promessa. Como uma recompensa por persistir com a vida tanto tempo confinado em uma sala de aula. Sabemos que esse momento, e todas as partes dele... irão viver para sempre.
A fé de um ao outro e a possibilidade do amor. O compromisso, que de uma vez liga várias almas e ainda serve laços prévios de amizade.
A celebração, de mais uma conquista, mais uma fase de nossas vidas concluída e o desafio dos laços à frente.
Porque 43 é sempre mais forte que um. Como uma equipe, preparada contra a tempestade do mundo. E o amor será sempre a força guiando nossas vidas.
Para esta noite é mera formalidade, só um anúncio ao mundo para o longo dos sentimentos perdido.
Aos pais, divididos entre o orgulho, a sensação de dever cumprido e o medo de ver que os filhos cresceram, resta dizer que nos deixem na busca para reparar o passado, deixem-nos aceitar nossas próprias responsabilidades para o futuro.
A vida real abre suas portas para nós e temos de começar a nos acostumar com alguns fracassos. O mais importante é que sabemos que poderemos sempre contar com pelo menos uma das outras 42 pessoas da 3002, pois além de lembranças, levamos amigos e colo, afinal, num grupo de gente tão bela e tão boa fica mais do que claro que por onde formos, ainda seremos um só.
O mundo pode esperar de nós grandes feitos. Mas grandes feitos que podem até passar desapercebidos. Nossa mágica certamente acontecerá na ação pessoal, no poder incrível de fazer sorrir e estar presente. É justamente por sermos tão bons juntos que temos o compromisso de levar um pouco do que vivemos para os lugares que vamos alcançar. Não espero dessa turma só a idéia superficial que entendemos por sucesso. Se as pessoas da 3002 puderem continuar sendo quem foram nos últimos anos, já terão deixados marcas indeléveis por onde quer que tenham passado e transformado a vida de muita gente.
Podemos alcançar o mundo que desejamos. Ele existe. É real. É possível. E é todo nosso. Tenho orgulho de poder dizer que faço parte de uma turma tão especial. Percebemos pessoas de personalidades tão distintas mas que ajudam a compor e caracterizar o que nós conhecemos como a família 3002. Nunca nos esqueceremos dos abraços, das rodas de violão, dos churrascos... E, bem, dos outros churrascos.
Foram vocês que me ensinaram que tempos podem passar, mas o amor, acima de tudo o amor, esse não passa, é eterno. E talvez porque tenhamos sabido vivê-lo da melhor maneira possível, seremos sim pra sempre.

3002, palmas pra nós. Nós conseguimos!

Para os grandes amigos e grandes seres humanos que comigo tanto dividiram. Amo vocês 3002.

Domingo, 5 de Outubro de 2008

Eu vou andar de trem, e você vai também.


Viver no interior é um grande privilégio. Viver numa grande cidade de interior e participar de seu processo eleitoral é uma piada. A República do Café-com-leite já terminou há quase 80 anos e, em pleno século XXI, tivemos a oportunidade de conviver por um dia com alguns dos fantasmas do nosso passado.

É evidente que muita coisa foi reinventada, a começar pela maneira como as pessoas se fazem eleger. Se antes o símbolo de poder era a terra, hoje, mesmo as eleições minicipais comprovaram que a força está com a mídia. Ao invés de um coronel, Nova Friburgo elegeu como o vereador mais votado da sua história o dono de uma emissora de TV local, que pouco fez pela cidade além de proporcionar boas gargalhadas à população que ria das situações ridículas às quais ele se expunha. Elegemos quem tem mais tempo no ar, deixamos de lado as propostas.

Quanto às eleições para a Prefeitura, devo dizer que tudo tem seu lado bom. E devo dizer que, sem fugir à regra, a vitória de Heródoto Bento de Mello tem inúmeros lados bons, o melhor deles é o fato de andaremos de trem, não de bicicleta. Aliás, que tipo de canditato pode ousar propor a mim a feitura de qualquer exercício físico?

O sistema está caducando, ou os governantes, a essa altura do campeonato eu não sei mais. Fugindo do perfil coronelista (isso sem contar o chapéu panamá ridículo), Heródoto me confunde com algo entre o populismo varguista e o espírito de um governo da era militar. O povo, usado como massa de manobra, vibra com uma vitória que mais uma vez não é dele, mas da elite local, fazendo valer frases do nosso futuro governante como "Quem pede pouco é pobre." ou "Professor é igual a chuchu: dá em qualquer lugar.". O povo mostra ainda que gosta mesmo é da ilusão de um Milagre Econômico do qual nunca se beneficiará. Nas eleições de 2008 em Friburgo não havia nenhum candidato a faraó, mas foi a memória fraca e promessa de obras com realização pouco menos complicadas do que a das pirâmides do Egito que falaram mais alto. É certo que trem elétrico não tem roda, o que tem roda é a ignorância ou a ingenuidade.

Já o presidente Lula, que segundo analistas elegeria até poste, deve ter ficado mais tímido do que o esperado, contentando-se com a reeleição de alguns hidrantes. A boa notícia é a maior expessividade de partidos políticos que normalmente ficam afastados das primeiras posições. Foi a primeira vez desde a reforma do fim da ditadura, que assegurou a pluripartidariedade e o surgimento do PT, PdT e PSDB (nem tudo são flores), que organizações menores nesse âmbito da luta política tiveram um desempenho tão bom, Gabeira do PV que o diga.
Muita coisa anda mudando, como a boca de urna que não é mais funcional e o idiota é aquele preso por isso (muito candidatos, inclusive). Porém , o que continua igual é a meia dúzia de tijolos ou os dois engradados de cerveja que ainda são um bom preço para voto, além disso, por mais distantes da República Velha que julgamos estar, transporte irregular de eleitores é um elemento que faz parte do nosso processo eletivo.
É exatamente dessa maneira que a democracia fez-se valer no 4 de outubro de 2008, o que só nos leva a crer que supervalorizamos os conceitos que entendemos por democracia. Liberdade e igualdade são elementos que só serão alcançados com inteligência, não com paridade influenciada por manipulações. De tudo isso fica só uma certeza: perpetuar estruturas de poder é algo capaz de proporcionar à galera algumas boas viagens. Viagens de trem.

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Um gostinho antes da publicação

A caminho de uma nova terra, retirei do fundo do armário a mala
velha do período de férias. Aquela era a mala querida que agora
carregaria meus sonhos, meus medos, minha fé rejuvenescida,
algumas lembranças dos meu amigos e do meu irmão Miguel, a coragem
e a determinação, minha humildade, as pequenas coisas cheias de
signifi cado, meus princípios, fotos de momentos que marcaram como o
dia em que eu e papai fomos ao parque de diversões,a pequena concha
com a pérola que eu havia encontrado na caixa do girassol, minha responsabilidade,
um espelho, algumas roupas, aqueles livros inseparáveis
(inclusive o Fernão Capelo gaivota), minhas raízes e minha esperança.
Seria difícil carregar aquela mala, ela estaria muito pesada. Nela eu
carregaria meu único tesouro: a minha vida.
Saí puxando todas as minhas coisas e parei na porta do quarto.
Olhei para trás, e ao vê-lo vazio de lembranças foi como se também
lançasse um olhar a todo meu passado. Via muitas lágrimas choradas
naquele travesseiro, lembrava de brincar naquele tapete, sorrir ao telefone...
Levava comigo apenas o que podia carregar: passado, amor e
entrega. Tudo que não era necessário fi cava para trás. O quarto simbolizava
o palco de uma história que tinham escrito por mim, e agora o
mundo seria o palco da história que eu estava prestes a escrever.
Tudo tinha passado muito rápido. Parecia que a Dona Maria me
entregara o diário no dia anterior. Em pouco mais de um ano quanta
coisa havia acontecido... A chacina que matara Miguel, a saudade que
sentira dele e da mamãe, o fracasso no vestibular, a descoberta da minha
liberdade e a minha aceitação pessoal, as intermináveis brigas com meu
pai, as aulas do cursinho, a aproximação com a minha família, os trabalhos
sociais e pastorais, o sentido que eu descobrira para a vida, o valor
que eu aprendera a dar às coisas e pessoas importantes...
Em algumas horas eu estaria embarcando para a Amazônia. Era
um novo caminho a ser trilhado, uma nova história: dessa vez a minha.
Verdadeiramente um novo tempo.
Eu só não havia lido uma página do diário do Miguel. Uma página
que eu guardara especialmente para aquela ocasião. Sentei em cima da
mala mesmo, no próprio corredor, e me pus a fazer uma última viagem
ao passado do meu irmão.

Hoje, o grupo se reuniu na casa da Sol para assistir
a um filminho...
No final, resolvemos sair um pouco, a noite estava
bem quente, sentamos na lanchonete e nos pusemos ao
debate. Opiniões diversas, sensações diferentes... É por
isso que adoro fazer esse tipo de programa com eles, um
simples filminho toma uma aspecto grandioso e a gente
acaba aprendendo mais sobre a própria vida.
Mas, numa coisa todos concordamos, jamais esqueceríamos
aquela frase: “Tudo é possível, exceto deixar de sentir”.
Concordávamos com a verdade daquelas palavras, deixar
de sentir era impossível, só não tínhamos certeza se todas
as outras coisas eram possíveis... A vida da maioria
de nós era difícil demais para acreditarmos nisso assim,
tão impunemente. Entretanto, nos beneficiamos da
dúvida... Ela já nos garantia um pouco de esperança
A partir disso, começamos a partilhar nossos sonhos
mais impossíveis. O Jorge queria morar numa casa
enorme, que tivesse um quarto para cada um dos seus
sete irmãos. A Sol queria construir uma casa para a
formação de uma juventude diferente.
Assim foi passando o tempo, cada um desfiando seus
sonhos. Eu dizia que queria mudar a vida de uma pessoa
só, todo mundo me zoou, afinal eu podia escolher
mudar o mundo... Naquele momento tudo era possível.
Sabe que eu fiquei meio tímido diante da minha ineficácia
em sonhar?
Mas, apesar de saber que todas as outras coisas
eram possíveis, eu tinha a certeza de que mudar a vida
de uma pessoa só já seria suficiente.
Mesmo assim, a galera não sossegou e me fez prometer
que eu iria pensar em outra coisa que realmente quisesse
e que fosse potencialmente impossível! Promessa feita.

Quando eu senti que estava chorando, sabia que aquelas seriam as
últimas lágrimas que derramaria diante do diário. O Miguel tinha conseguido
realizar seu maior sonho. Ele tinha mudado a minha vida.
Desci as escadas tentando memorizar cada aspecto do apartamento
naquele dia. Queria levar cada uma daquelas imagens comigo. Quando
cheguei à sala encontrei com a Sol e a Sofi a sentadas chorosas no sofá.
Elas já tinham preparado uma festa de despedida para mim no dia anterior,
só que não deviam ter se agüentado e acabaram aparecendo lá
em casa naquele dia também. A festa tinha sido linda... Todos os meus
amigos do cursinho, o meu pai e até os meus amigos antigos da escola
estavam lá... Tive direito à celebração e tudo.
A Sol me deu um grande abraço e me entregou uma medalhinha
de Santa Paula. Disse-me para pedir sempre àquela mulher pela qual eu
tinha me apaixonado que me protegesse e me iluminasse nos bons e nos
maus momentos...
Sol tinha se tornado uma grande amiga, seria para sempre minha
fortaleza e meu ombro amigo.
Sofi a, aos prantos, exagerada como sempre, me deu um beijo e um
abraço sem fi m... Parecia que ela queria se agarrar a cada momento
como se fosse o último. Quando conseguiu se acalmar, tirou da bolsa
uma Bíblia e me deu. Pediu para que eu usasse esse alicerce sempre e
que eu permitisse que a sabedoria existente nela se fi zesse presente em
todos os meus dias. Insistiu na idéia de que eu, como o educador que eu
me tornara, deveria usar seu presente como base e caminho para formar
novos jovens prontos para enfrentar o mundo, sem qualquer tipo de
medo ou receio de serem capazes de construir a sua própria história.
Olhei para o relógio. Aquela melação toda, da qual estava gostando
tanto, estava me atrasando. Dirigi-me à porta e dei de cara com meu
pai. Ele também tinha um presente em mãos, não se contentando em
já ter me enchido de coisas durante a última semana. Pediu para que eu
só abrisse aquele no táxi.
Eu também tinha que entregar duas coisas a ele: a chave da caixa do
girassol e o diário do Miguel, do qual ele agora precisava mais do que
eu. Ele seria a primeira pessoa depois de mim que teria contato com
as histórias que me fi zeram crescer tanto, antes mesmo de elas serem
publicadas.
O velho estava muito engraçado. Fazia uma força tão grande para
não chorar na frente das meninas que chegava a ser ridículo... Tinham
coisas que não haviam mudado muito nesse último ano.
Descemos todos juntos o elevador e eu dei mais um abraço em cada
um antes de entrar no táxi.
Fiquei olhando os três pela janela até que o carro virasse a esquina.
Era o fi m de uma era. Um tempo que deixaria marcas e saudades.
Abri o presente que meu pai me dera. Era um livro preto, todo
em branco. Na primeira página, com a letra do meu pai estava escrito
“Diário”. Fiquei surpreso, mas tonto de felicidade. De onde será que
ele tinha tirado tanta sensibilidade para pensar em um presente como
esse? Era genial!
Eu agora teria a oportunidade de escrever a minha própria história.
Uma história na qual eu era independente e protagonista, ninguém a
escreveria por mim.
O diário só precisaria de um título. E quando eu avistei o aeroporto
se aproximando eu só consegui pensar em um, um título que resumia
tudo pelo que eu havia passado no último ano e iria enfrentar dali para
frente.
Peguei no meu bolso a caneta que há muito pertencera à minha
mãe e escrevi na contracapa com a maior letra que pude:
Abri o coração à maiores esperanças.

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Quem tem medo do escuro?


Ela nunca gostara de ficar sozinha. Quando criança, fora violentada por um dos hóspedes da pensão de sua mãe. Desde então passou a ter medo do escuro.

Nos últimos dias, passar a noite sozinha no bordel se tornara uma tarefa ainda mais difícil e enervante: um serial killer vinha atacando as prostitutas da região.

Seu cliente mais assíduo acabra de sair. Estava entregue à eterna desvantagem de ser uma amante, para ela nunca sobravam os momentos de proteção ou as datas especiais. O quarto ficava mais vazio sem ele, o ambiente pobre e vulgar que ela lutara para tornar familiar e acolhedor adquiria um aspecto sombrio.

sabia que as luzes acesas poderiam denunciar sua presença ao assassino, mas o medo do escuro era maior do que o da morte. Podia sentir a presença de mais alguém no velho sobrado, por mais que a idéia soasse absurda, já que todas as outras tinham ido embora por causa dos recentes ataques. Ela decidira ficar por amor, seus curtos encontros com aquele que antes era apenas um cliente eram o que mantinham-na viva.

Ouviu passos leves no velho assoalho do corredor, como se quem estivesse lá não quisesse denunciar sua presença. Começou a entrever estranhos vultos no espelho, talvez fosse sua imaginação.

Sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao ouvir o ranger da porta do quarto. Totalmente coberta pela manta, rezava para que fosse apenas o vento. Os passos estavam mais perto, algo tocou seu corpo...

Pulou da cama em pânico e deu de cara com a gata do sobrado vizinnho.

Estatuto do Esquecimento


Dezoito anos depois da criação do ECA, ainda constam dados assustadores relativos aos abusos à integridade física e psicológica de crianças e adolescentes. O estatuto completa a maioridade com uma bela redação que beira o lirismo, mas com uma intervenção na realidade infanto-juvenil que poderia ser muito mais efetiva.

O que é praticado cotidianamente pela sociedade tem um caráter praticamente antitético em relação ao que é previsto nos artigos do ECA. A absoluta prioridade que deveria ser direcionada à efetivação dos direitos é uma mera fantasia e o envolvimento da comunidade e dos núcleos familiares na hora de assegurá-los é mínimo.

O comprometimento midiático com as bandeiras infanto-juvenis não é inexistente, mas negligencia a vida das próprias criaças e adolescentes ao noticiar apenas o absurdo ou brutal, quando, na verdade, são principalmente falhas cotidianas, comuns e sem qualquer conteúdo jornalístico que ferem irreversivelmente a formação saudável dos jovens. Um processo de maior conscientização em relação ao Estatuto da Criança e do Adolescente seria a chave para uma maior participação popular, isso se pudesse ser contínuo e afastado de um discurso superficial e sensacionalista.

Um estatuto utópico e modelo não serve de nada se cai no no esquecimento. A ação ética e efetiva da imprensa para fazer com que os lirismos contemplados no ECA cheguem de fato a cada célula da sociedade é mais do que requerida na construção de uma sociedade em que leis não são apenas uma ilustração.

Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

A ditadura do orgasmo e o amor forçado


Fica cada vez mais ridiculamente evidente que a "sociedade das liberdades individuais", além de fomentar as mais diversas formas de pobreza, só se mostra realmente eficaz ao aprisionar o indivíduo de forma irreversível.

Nossos sonhos mais loucos e pessoais geralmente não passam de um fragmento desviado do inconsciente coletivo. Assim aprendemos que a felicidade chega com a casa própria, que devemos esperar pelo amor verdadeiro e que orgasmos são realmente importantes.

O dia 31 de julho é o Dia Mundial do Orgasmo e eu estava assistindo agorinha mesmo um programa que discutia a absurda e insalubre busca pelo orgasmo feminino. Para elas não existe dia D, hora H ou ponto G, o que realmente conta na hora do sexo são os ouvidos. Mulheres têm um dos ouvidos treinados para ouvir romantismo e o outro para ouvir safadeza.

Nós homens já somos, por natureza, escravos do orgasmo. A reprodução humana exige que o homem ejacule durante o ato sexual, talvez por isso não exista quem consiga promover muita ação depois do orgasmo. Já as mulheres, são capazes de ter uma série de orgasmos e continuar com pilha de sobra para fazer funcionar o controle remoto (embora o fato de elas atingirem de fato um orgasmo seja mais incomum do que se imagina, vários então, nem se fala - isso segundo a sexóloga e o ginecologista entrevistados pelo programa).

Não satisfeitas em condicionar as mulheres a uma procura incansável por padrões inatingíveis de beleza, a imprensa voltada para o público feminino traça novos caminhos, todos eles levando ao orgasmo. Um guia prático para chegar lá, Como apimentar as coisas na cama, 10 maneiras para se chegar ao orgasmo com facilidade... E esse é só o começo.

Aficcionadas por amor, elas agora procuram pelo prazer com sede por sangue, sem saber se alguma dessas procuras vai algum dia levá-las à verdadeira satisfação pessoal.

A verdade é que nem a ditadura do amor, nem a do sexo, e muito menos a da beleza vão chegar a lugar algum se andarem separadas. Meu conselho para qualquer comunicador homogeinizador de pensamentos seria promover uma lavagem cerebral com as três técnicas unidas. O diferencial do ser humano no ato sexual é poder colocar o amor no meio (por isso que nós, diferente de qualquer outra espécie, fazemos amor de frente, com as mandíbulas perto do outro, e mesmo assim com risco quase nulo de alguém ser mordido sem consentimento).

Uma relação sexual bem-sucedida requer muito mais do que um simples orgasmo, assim como um relacionamento bem-sucedido pode transcender surpreendentemente as barreiras do sexo. Amor é para sempre, sexo não. Ao chegar aos 60, muita gente já prefere uma boa garrafa de vinho e consegue encontrar novas maneiras de curtir um momento a dois.

Tomara que em algum momento alguém se dê conta de que quem tem que saber o que é melhor pra gente somos nós mesmos. No sexo, o orgasmo não é a única maneira de fazer com que uma mulher se sinta satisfeita. Existem relações em que as pessoas podem simplesmente ficar abraçadas. E, acima de tudo, o fato de o amor não chegar não deveria impedir a felicidade de ninguém.